terça-feira, 22 de março de 2016

Art. 2 - Personalidade e Internet

                                           
REPRESENTAÇÕES DO EU E AS REDES VIRTUAIS

Autor (a):
Desirée Cardoso Caramori
Psicóloga Clínica – CRP 08/22515
Co-Autor e Revisão de: 
Raphael Dutra
Psicólogo Clínico – CRP 08/ 22516

Vivemos tempos líquidos, onde tudo que é sólido se liquefaz, inclusive às relações sociais cada vez mais tênues, perderam sua estrutura, sua organicidade, as identidades. Por meio da análise da mudança de hábitos cotidianos, provocados pelas redes virtuais, podemos encontrar fenômenos contemporâneos que estão em constante crescimento, como as então chamadas “geração de cabeça baixa”. Andamos pelas ruas, dentro de ônibus e metros, sentados em grupo em uma mesa de bar, ou restaurantes, e nos preocupamos em estar fixados nas telas dos celulares. A relação outrora vivida com os amigos, familiares, professores, devem agora ser divididas com uma com uma identidade formada no cyber espaço, pela exposição do individuo no que ele é ou pelo que deseja ser, nas redes conectadas.
Este contexto leva-nos a pressuposição que o exposto pelos usuários no mundo online pode não harmonizar-se com o seu mundo interno, com o que o individuo realmente é, sua personalidade e suas vivências. Fato este que demonstra uma possível construção de identidades outras neste mundo de possibilidades, ou seja, a exposição e investimento no mundo virtual pode demonstrar a construção de uma segunda personalidade do indivíduo que só pode ser vista nas redes sociais.
Moldada conforme a demanda do cyber mundo, da internet, a identidade construída nas redes, pode trazer consigo, sentimentos de insegurança, necessidades exageradas de exposição e de um reconhecimento coletivo, doente. Este movimento entra em acordo com Bauman (2007), ao afirmar que a sociedade vive uma modernidade líquida, ao qual traz consigo sensações de instabilidade emocional e insegurança. Estas são produzidas pela inconstância das coisas, que surgem devido aos processos de transformação social, como o surgimento das redes sociais e da internet, influenciando diretamente os indivíduos.
Desta forma, seguindo os pressupostos de Bauman (2007) a sociabilidade, a vida social das pessoas, experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: 1) a metamorfose do cidadão, ou seja, o sujeito de direitos em busca de afirmação no espaço social; 2) a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição, troca-se o altruísmo por processos egoístas e competitivos; 3) o enfraquecimento dos sistemas do Estado pelas condições de hesitação da vida, gerando deste modo um permanente ambiente de incertezas.
Segundo Bauman (2007), o terreno o qual nossas expectativas de vida têm de se apoiar têm sido reconhecidamente incerto; como os empregos e as empresas, parceiros e redes de amizade, a posição na sociedade, a autoestima e autoconfiança advindas desta. Desta forma, acredita-se que a sociedade atual experimenta um constante sentimento de insegurança e incertezas em diversos âmbitos de suas vidas, o que culmina com a teoria de Bauman sobre as relações liquidas.
Diante deste contexto, ao qual notamos uma desvalorização, devido a uma acentuada mudança social em relação ao estabelecimento das relações dos seres humanos, observa-se uma banalização dos laços afetivos sociais, possivelmente resultado da modernidade líquida onde nada é feito para durar, tudo se dissipa.
Dito isso sobre o contexto histórico atual, a disseminação da internet e as redes sociais culminaram para esse processo, de nova construção identitária, ou seja, de uma identidade virtual, baseada nesses moldes contemporâneos e suas relações efêmeras. 
Sobre a construção identitária quando falamos em identidade podemos recorrer a Ciampa (1984), que percebe como um processo dinâmico e de transformações; uma ‘metamorfose’ que ocorre ao longo da vida dos indivíduos, tanto no plano subjetivo como no plano objetivo e tem influência direta nas relações que esses indivíduos estabelecem com as várias esferas de sua vida social inclusive nas redes sociais.
A sociedade se redefiniu como resultado da transformação dos indivíduos que se encontram imersos nessa realidade do mundo de tecnologias, onde há essa hipervelocidade e excesso de informações (nas redes virtuais), porém sem de fato uma reflexão por parte dos usuários.   
Conforme a autora Recuero, (2011), quando se trabalha com redes sociais na Internet, os atores, ou seja, os usuários, internautas, são constituídos de maneira diferenciada. Devido ao distanciamento entre os envolvidos, na interação social, mediados pelo computador, ou seja, pela distancia física dos indivíduos que encontra-se apenas pela representação virtual na tela de computadores e smartphones.
A identidade dos indivíduos é um processo constante de vir a ser, um ser plural, que cria e se recria a partir de aspectos da relação com o outro, dos novos modos de relacionamentos, como os estabelecidos nas redes virtuais. Porém, até que ponto é saudável essa identidade construída na rede social, ou mesmo, no Cyber espaço? Qual é o limite em passar horas conectados em um ambiente virtual? São questões que precisam ser repensadas em nossas práticas, ao usar a rede social e a internet; Como é esta interação entre a informação nas redes sociais e os seus usuários, pois as redes virtuais costumam oferecer a informação de forma unilateral, ou seja, mostram apenas um “lado da história” e muitos se pautam nesta. Memórias afetivas são banalizadas, pois é mais importante postar uma foto, tê-la no celular, do que recordar ou tê-la em mente, é preciso mostrar ao outro o que “sou” (identidade) ou o que anseio ser (identidade criada) para ser aceito neste meio.
Em suma, percebemos que a sociedade atual utiliza-se de um mecanismo de uma construção de identidade virtual, uma representação do Eu dos indivíduos que nem sempre é fiel a identidade da vida real. Sendo assim, esta construção caminha em acordo com o apresentado por Bauman como sendo uma sociedade de relações líquidas, mostrando aspectos de insegurança que pode enfraquecer as relações reais. Embora tenhamos a consciência da importância da internet e das redes sociais como facilitadoras, de acesso rápido as informações, e de encurtar a distância entre as pessoas, é preciso atentar-se para a identidade que se esta forjando nela, e se esta é fiel à a real, ou se esta sendo utilizada como uma construção a partir do desejo de ser dos indivíduos.


Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. (Trad. Carlos Alberto Medeiros). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

CIAMPA, Antônio. Psicologia social. O homem em movimento. In_ Identidade. CIAMPA, Antônio. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.

RECUERO, Raquel. Redes Sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Art. 1 -"Estou Desempregado"

“ESTOU DESEMPREGADO”:  CONSEQUÊNCIAS DA FALTA DE EMPREGO PARA A SAÚDE MENTAL


Autor:
Raphael Edson Dutra
Psicólogo Clínico– CRP 08/22516
Revisão de:
Desireé  Caramori
Psicóloga Clínica – CRP 08/ 22515

Diante da atual realidade social, em relação ao trabalho, é comum que frases como “Estou desempregado", "Não, ainda não estou trabalhando", "Está muito difícil conseguir um emprego”, tornaram-se corriqueiras na vida das pessoas. Segundo dados do Instituto Brasileiro Geográfico (IBGE), houve um aumento considerável de pessoas desempregadas no Brasil no último trimestre de 2016, em relação ao fechamento do ano de 2015.  Assim, os dados apontam que apenas nos primeiros três meses do ano (2016), o índice de desempregados no Brasil chegou a 9%, ou seja, para a revista eletrônica o Globo, cerca de 9,1 Milhões de Brasileiros e Brasileiras estão desempregados. E assim, com a atual realidade do trabalho tornou-se corriqueiro frases relacionadas ao desemprego, que demonstram as angustias, medos e anseios dos brasileiros em relação a sua vida financeira. Porém, precisamos compreender as perdas ocasionadas pelo desemprego para além do salário no começo do mês. Em uma conversa informal, R. de 35 anos, afirma que a falta de emprego alterou  sua saúde emocional  e com isso, diz ela, “Percebi que estou muito irritada (...). É o acumulado. Difícil não é?. Não vejo a hora de voltar a trabalhar, isso está afetando até meu projeto de emagrecer ( e com isso parte de sua autoestima), e meu psicológico”.
A partir do exemplo da fala de R. podemos perceber que o trabalho não possui apenas um significado de fluxo contínuo de captação de renda ($), mas sim, é possível o perceber como sendo um fator socialmente construído que auxilia na formação da identidade e da autoestima, e da saúde emocional e psicológica dos indivíduos. Para Pinheiro e Monteiro (2007, p.36) “O trabalho constituiu-se para o homem [seres humanos] como um verdadeiro sentido de vida, sendo que, em muitas situações, ele passa a maior parte de seu tempo trabalhando, mais do que vivenciando situações fora do espaço de trabalho”. Assim, podemos identificar a importância do trabalho na vida das pessoas para além de apenas um ganho para a sobrevivência financeira, como um elemento importante para o bem estar da vida psicológica, física e social.
 Sendo assim, a falta do contrato formal de trabalho, para Pinheiros e Monteiro (2007, p.45), possui consequências que podem “acarretar na desestruturação de laços sociais e afetivos, a restrição de direitos, a insegurança socioeconômica, a redução da auto-estima, o sentimento de solidão e fracasso”, ou mesmo a distúrbios mentais e uso e abuso de drogas e álcool. Já os estudos de Vanessa M. Almeida (2007), mostram que o desemprego passa a atingir as pessoas da seguinte forma;

·   Aumentar Negativamente a Ansiedade, causando estresse, descontrole emocional, irritabilidade e doenças somáticas como; infarto, diabetes e ulcera.
·   Auxiliar no desenvolvimento de transtornos como Síndrome do pânico e Depressão ansiosa (medo, tensão e preocupação em excesso), Depressão apática (humor apático e lentidão psicológica e motora) e Depressão atípica (com o aumento de apetite, de peso, fadiga, sono).
·   Baixa autoestima, e uma autodesvalorização e falta de reconhecimento de si, e de suas habilidades e competências.

Como vimos o trabalho possui um valor diferente do numero bancário do 5° dia útil, trabalhar dá sentido, para alguns, a sua vida, faz com que o trabalhador sinta-se “útil” em sua vida individual e social. Sendo assim, a ausência do emprego para “o desempregado, (...) [é como viver], (...) à margem da sociedade, por não ser reconhecido como um cidadão ativo e produtivo” (PINHEIRO, MONTEIRO, 2007, p.45).
Ok! Entendemos que a saúde do desempregado pode “estar em jogo”, e que a ausência de uma atividade laboral pode fazer com que sintomas psicológicos, como a depressão a síndrome do pânico; Sintomas físicos, como o aumento da diabetes; Sintomas Sociais, como sentimento de isolamento, de inutilidade social e de instabilidade econômica, podem ser sentidos pelas pessoas. Mas, diante de uma realidade incontrolada, que não depende apenas dos indivíduos, mas sim de uma contingência de fatores, para a reentrada no mercado de trabalho, como evitar, ou mesmo diminuir, os sofrimentos e sintomas provocados pela falta de emprego?  Nossa experiência na clínica psicológica nos mostrou algumas estratégias de enfrentamento que talvez lhes possam ser úteis, aqui vai algumas dicas:

·Enfrente o problema, não fuja de suas responsabilidades, estar desempregado pode possibilitar que você olhe para si mesmo e encontre uma forma de inovar, de conhecer novas ideias as quais não sabia que existia em você, Pinheiro e Monteiro (2007).
· Seja criativo e organizado, planejamento, antes da ação, é a chave para o sucesso. Não haja por “impulso”, pense muito bem antes de agir.
· Faça trabalho Voluntário, pelo menos uma vez por semana, SIM!!, o trabalho voluntário auxilia no desenvolvimento da sociedade. Ao colocar seu tempo, e investir em outras pessoas, investe-se em cidadania e em benefícios para o próprio individuo como adquirir mais experiências profissionais e humanas, Nunes (2009).
·  Ao sentir os sintomas psicológicos e físicos ocasionados pelo desemprego, procure ajuda, médica e psicológica, estes recursos estão disponíveis na rede pública (SUS) e em consultórios de clínica de psicologia social.
·  Retome atividades que te dão prazer, faça caminhada, ouça suas músicas preferidas, leia seus livros favoritos, tenha atividades no seu dia, relembre tudo aquilo gosta de fazer, dance, cante ou toque um instrumento, reforce suas qualidades. Lembre-se, mesmo sabendo da importância da atividade do trabalho formal, você é um individuo com gostos, desejos e qualidades que estão para além de sua força laboral. Portanto, olhe para si  mesmo e para suas potencialidades, você pode encontrar nelas um importante aliado. 

O que aqui expomos é apenas algumas dicas para lidar com uma realidade social que diariamente nos aflige, a falta de emprego. Sendo assim, cabe ao indivíduo lidar com o desemprego da melhor maneira possível, procurando meios alternativos para cuidar da sua saúde física e emocional, evitando assim, os agravantes desencadeados por este problema público.
 
Referências

ALMEIDA, Vanessa M. Como vencer o desemprego. São Paulo: Conselho Regional de Química, 2007. Disponível em http://www.crq4.org.br/download.

PINHEIRO, Leticia Ribeiro, MONTEIRO, Janine Kieling. Caderno de Psicologia social e do trabalho.  Refletindo sobre o desemprego e agravos à saúde mental.  Vol.10 n.02. São Paulo: USP, 2007.p.35-45.

NUNES, Denise Cardoso. Qual a importância do trabalho voluntário para sustentabilidade de organizações não-governamentais?. Monografia, Ms Fernando Guilherme Tenório ( Orientador). Rio de Janeiro: FGV, 2009. Disponível em <http://bibliotecadigital.fgv.br>