REPRESENTAÇÕES DO EU E AS
REDES VIRTUAIS
Autor (a):
Desirée Cardoso Caramori
Psicóloga Clínica – CRP 08/22515
Co-Autor e Revisão de:
Raphael Dutra
Psicólogo Clínico – CRP 08/ 22516
Vivemos
tempos líquidos, onde tudo que é sólido se liquefaz, inclusive às relações
sociais cada vez mais tênues, perderam sua estrutura, sua organicidade, as
identidades. Por meio da análise da mudança de hábitos cotidianos,
provocados pelas redes virtuais, podemos encontrar fenômenos contemporâneos que
estão em constante crescimento, como as então chamadas “geração de cabeça
baixa”. Andamos pelas ruas, dentro de ônibus e metros, sentados em grupo em uma
mesa de bar, ou restaurantes, e nos preocupamos em estar fixados nas telas dos
celulares. A relação outrora vivida com os amigos, familiares, professores,
devem agora ser divididas com uma com uma identidade formada no cyber espaço,
pela exposição do individuo no que ele é ou pelo que deseja ser, nas redes
conectadas.
Este contexto leva-nos a
pressuposição que o exposto pelos usuários no mundo online pode não
harmonizar-se com o seu mundo interno, com o que o individuo realmente é, sua
personalidade e suas vivências. Fato este que demonstra uma possível construção
de identidades outras neste mundo de possibilidades, ou seja, a exposição e
investimento no mundo virtual pode demonstrar a construção de uma segunda
personalidade do indivíduo que só pode ser vista nas redes sociais.
Moldada conforme a demanda do cyber mundo, da internet, a
identidade construída nas redes, pode trazer consigo, sentimentos de
insegurança, necessidades exageradas de exposição e de um reconhecimento
coletivo, doente. Este movimento entra em acordo com Bauman (2007), ao afirmar que a sociedade
vive uma modernidade líquida, ao qual traz consigo sensações de instabilidade emocional
e insegurança. Estas são produzidas pela inconstância das coisas, que surgem
devido aos processos de transformação social, como o surgimento das redes
sociais e da internet, influenciando diretamente os indivíduos.
Desta forma, seguindo os pressupostos de Bauman (2007) a
sociabilidade, a vida social das pessoas, experimenta uma transformação que
pode ser sintetizada nos seguintes processos: 1) a metamorfose do cidadão, ou
seja, o sujeito de direitos em busca de afirmação
no espaço social; 2) a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as
de disputa e competição, troca-se o altruísmo por processos egoístas e
competitivos; 3) o enfraquecimento dos sistemas do Estado pelas condições de
hesitação da vida, gerando deste modo um permanente ambiente de incertezas.
Segundo
Bauman (2007), o terreno o qual nossas expectativas de vida têm de se apoiar
têm sido reconhecidamente incerto; como os empregos e as empresas, parceiros e
redes de amizade, a posição na sociedade, a autoestima e autoconfiança advindas
desta. Desta forma, acredita-se que a sociedade atual experimenta um constante
sentimento de insegurança e incertezas em diversos âmbitos de suas vidas, o que
culmina com a teoria de Bauman sobre as relações liquidas.
Diante
deste contexto, ao qual notamos uma desvalorização, devido a uma acentuada
mudança social em relação ao estabelecimento das relações dos seres humanos, observa-se
uma banalização dos laços afetivos sociais, possivelmente resultado da
modernidade líquida onde nada é feito para durar, tudo se dissipa.
Dito
isso sobre o contexto histórico atual, a disseminação da internet e as redes
sociais culminaram para esse processo, de nova construção identitária, ou seja,
de uma identidade virtual, baseada nesses moldes contemporâneos e suas relações
efêmeras.
Sobre a construção identitária quando falamos em identidade
podemos recorrer a Ciampa (1984), que percebe como um processo dinâmico e de
transformações; uma ‘metamorfose’ que ocorre ao longo da vida dos indivíduos,
tanto no plano subjetivo como no plano objetivo e tem influência direta nas relações que esses indivíduos estabelecem
com as várias esferas de sua vida social inclusive nas redes sociais.
A sociedade se redefiniu como resultado da transformação
dos indivíduos que se encontram imersos nessa realidade do mundo de tecnologias,
onde há essa hipervelocidade e excesso de informações (nas redes virtuais),
porém sem de fato uma reflexão por parte dos usuários.
Conforme a autora Recuero,
(2011), quando se trabalha com redes sociais na Internet, os atores, ou seja,
os usuários, internautas, são constituídos de maneira diferenciada. Devido ao
distanciamento entre os envolvidos, na interação social, mediados pelo
computador, ou seja, pela distancia física dos indivíduos que encontra-se
apenas pela representação virtual na tela de computadores e smartphones.
A identidade dos indivíduos
é um processo constante de vir a ser, um ser plural, que cria e se recria a
partir de aspectos da relação com o outro, dos novos modos de relacionamentos,
como os estabelecidos nas redes virtuais. Porém, até que ponto é saudável essa
identidade construída na rede social, ou mesmo, no Cyber espaço? Qual é o
limite em passar horas conectados em um ambiente virtual? São questões que
precisam ser repensadas em nossas práticas, ao usar a rede social e a internet;
Como é esta interação entre a informação nas redes sociais e os seus usuários, pois
as redes virtuais costumam oferecer a informação de forma unilateral, ou seja, mostram apenas um “lado da história” e muitos
se pautam nesta. Memórias afetivas são banalizadas, pois é mais importante
postar uma foto, tê-la no celular, do que recordar ou tê-la em mente, é preciso
mostrar ao outro o que “sou” (identidade) ou o que anseio ser (identidade
criada) para ser aceito neste meio.
Em suma, percebemos que a
sociedade atual utiliza-se de um mecanismo de uma construção de identidade
virtual, uma representação do Eu dos indivíduos que nem sempre é fiel a identidade
da vida real. Sendo assim, esta construção caminha em acordo com o apresentado
por Bauman como sendo uma sociedade de relações líquidas, mostrando aspectos de
insegurança que pode enfraquecer as relações reais. Embora tenhamos a
consciência da importância da internet e das redes sociais como facilitadoras,
de acesso rápido as informações, e de encurtar a distância entre as pessoas, é
preciso atentar-se para a identidade que se esta forjando nela, e se esta é
fiel à a real, ou se esta sendo utilizada como uma construção a partir do
desejo de ser dos indivíduos.
Referências
BAUMAN,
Zygmunt. Vida líquida. (Trad. Carlos
Alberto Medeiros). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
CIAMPA,
Antônio. Psicologia social. O homem em movimento. In_ Identidade. CIAMPA, Antônio. 2 ed. São
Paulo: Brasiliense, 1984.
RECUERO, Raquel. Redes Sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2011.
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